A aula do dia 09/06/2009 começou um pouco atrasada devido ao fato de nossa sala estar ocupada com uma defesa de tese. Para compensar, o clima junino ajudou na tolerância à “invasão da nossa praia”, com os amendoins e o licor. De qualquer modo, as apresentações e discussões transcorreram sem pressa e em um clima de bastante interesse por parte do grupo.
A dinâmica adotada na aula foi a de apresentação dos trabalhos e posterior discussão sobre todos eles, na tentativa de gerir melhor o tempo.
Aline apresentou suas reflexões a partir da leitura do livro de Paulo Freire “Professora sim , tia não...”. Partindo de questões relativas ao papel e identidade do professor, dentre outras, ela articulou as formulações freireanas, nesses livros, a seu projeto, que versa sobre a pedagogia hospitalar. A discussão se deu em torno de duas abordagens diversas da questão. Por um lado, a afirmação, legítima, da pertinência e importância da pedagogia hospitalar, como recurso de (re)socialização e humanização dos sujeitos infantis internados, a partir do ponto de vista das instituições – hospital e escola – e suas representações, funções e valores na sociedade. E por outro lado, a consideração ou indagação sobre o próprio sentido social e existencial dessas instituições, a partir de reflexões de fundo, no que tange ao próprio questionamento a respeito desses espaços, como espaços disciplinadores do corpo e do sujeito – em um sentido foucaultiano. Nesse sentido, sugeriu-se problematizar e perguntar-se sobre o que o ser humano hospitalizado quer, de fato, e indagar sobre se as crianças precisam mesmo ser incluídas no contexto escolar. A indagação, como provocação pertinente, iniciada pelas colocações de Pilar e Américo, não se deu como negação à necessidade da humanização do internamento em si mesmo, mas como questionamento do pressuposto de que as crianças hospitalizadas precisam e querem ser incluídas na instituição escolar ou que precisam de um cuidado que seja de caráter escolar. Pilar sugeriu que se pense sobre essa se constituir em uma questão investigativa e não um pressuposto de saída. Penso também que seria produtivo discutir sobre a constituição dessas instituições, seus discursos e práticas que buscam regulamentar a vida dos sujeitos, seus “efeitos de verdade” e de poder, e que se tensione a função de ressocializar e reeducar em seu sentido imanentemente e supostamente positivo, como Aline argumenta, e em seu sentido necessariamente negativo, como podemos argumentar outros de nós, imbuídos que estamos de reflexões freireanas e “marxistas”. Penso que seja fecundo, em termos de uma investigação, de fato problematizar essas questões, ainda que o foco da pesquisa se mantenha comprometido com a argumentação em favor da pedagogia hospitalar.
Outras pessoas se manifestaram aí, reforçando um ou outro argumento, contrapondo-os ou nem tanto. Mas confesso que saí para um cafezinho e perdi algumas falas. Eu nem sabia que o relato seria meu...
Após a apresentação de Aline, Américo e Pilar apresentaram, juntos, as articulações que fizeram com Paulo Freire, a partir das obras de Paulo Freire "Pedagogia do oprimido" e
"Pedagogia da autonomia" em suas leituras e “descrições densas” a partir dessas obras. Os colegas usaram também, em suas reflexões, as obras "A educação para a Autonomia: de Imanuel Kant e Paulo Freire", de Vizzente Zati, "Os processos formativos da corporeidade no marxismo", de Carlos Herdol Junior e "Elementos para compreender a modernidade do corpo numa sociedade racional" de Ana Marcia Silva.
Américo e Pilar partiram do ponto que seus projetos têm em comum, a saber, a questão da corporeidade, articulando-a à noção de autonomia, por entenderem que essa categoria estabelece o elo entre as perguntas investigativas deles e questão da corporeidade.
Partindo da afirmação de que historicamente diferentes conotações foram atribuídas ao termo autonomia, Américo falou um pouco sobre esse conceito, trazendo algumas definições, que ele problematizou, culminando com a conceituação de autonomia e heteronomia que puderam destacar a partir da leitura das formulações de Paulo Freire nas obras estudadas. Assim, autonomia implicaria em “ser para si” e heteronomia, “ser para o outro”, esse outro tomado em sua dimensão opressiva da qual se é preciso se emancipar. Digo isso, pois, como bakhtiniana que sou, ressalto o outro como essencial para a constituição do eu, inclusive do eu autônomo, eu sujeito constituído intersubjetivamente, que com o outro, a partir do outro, me torno eu, singular, sujeito. Nesse sentido podemos entender a autonomia em seu caráter de autoria, ainda que sob o equilíbrio tensivo entre sermos assujeitados e sermos autores, autônomos, sujeitos de nosso viver. Pilar retoma mais ou menos essa ideia quando diz que “o corpo não se emancipa sozinho”, mas com os outros, no mundo e com o mundo.
Achei interessante a ideia de Freire, trazida por Américo, sobre o inacabamento e o caráter inconcluso do ser humano: tomar consciência de seu inacabamento seria importante para que o sujeito se torne autônomo. Acho que essa ideia chamou minha atenção pelo fato de Bakhtin trazer uma ideia sobre o acabamento – numa perspectiva diversa, mas talvez dialogante – no âmbito da constituição intersubjetiva da subjetividade. Mas sobre isso falarei na semana que vem... (quando, enfim, falarei, né, gente?!!!).
Pilar apresentou categorias do corpo que conseguiram destacar a partir da descrição densa que disse terem elaborado a partir da leitura de Freire. Leitura, por sinal, que de modo interessante, ela confessa ter sido muito importante para por em crise seus pressupostos sobre a corporeidade, tal como entendida pela perspectiva pós-moderna. Digo interessante pelo fato de ela trazer o autor para sua reflexão não como obra a ser referida e dar subsídios a suas argumentações, mas para, em dissonância com suas ideias sobre o corpo, por em tensão sua perspectiva de investigação. Talvez seja isso que ela e Américo tentam dizer a Aline: por em crise os pressupostos. Mas isso é apenas o meu entendimento da nossa discussão de hoje, não sei se os atores das falas se reconhecerão em meus comentários sobre elas. Mas vá lá! O relato é meu, né? Comentem...
Pilar trouxe uma estratégia de apresentação muito rica e singela, apesar da densidade e complexidade das reflexões apresentadas. Borboletas de origami para a metáfora do movimento e transmutação (Borboleta virou poesia e de novo borboleta, ou mariposa...); belas imagens de borboletas borboleteando ideias, provenientes do site “deviantart.com”; e falou das categorias do corpo, que implica em movimento, movimentando-se ela mesma pela sala em momentos precisos e gestos suaves, dando uma interessante dinâmica à apresentação.
Ela apresentou as categorias do corpo inacabado, corpo insatisfeito, corpo experiência, corpo esperança, corpo ato e corpo mundo. Categorias que elaboraram a partir do que leram em Freire, demonstrando uma apropriação singular e rica das formulações do autor.
A categoria corpo inacabado é a categoria do sujeito em trânsito, na mutação, no movimento. A do corpo insatisfeito é o corpo-sujeito da rebeldia. A insatisfação implica em inconclusão e crítica que implica, por sua vez em curiosidade. O corpo experiência é o corpo que faz história, que tem memória própria, atualizando e historicizando essa memória. É o corpo como práxis. Essas três primeiras categorias, segundo Pilar, seriam as categorias da práxis filosófica. Mas há também as categorias da práxis material. A categoria do corpo esperança faz o elo entre esse primeiro grupo e o segundo grupo de categorias do corpo. É a categoria ontológica da utopia, da autonomia, da esperança que a utopia seja possível. As categorias da práxis material seriam a do corpo ato, do fazer, do agir, que leva a um mundo material, corporal; e a do corpo mundo, do corpo no mundo e do corpo com o mundo, corpo que não se emancipa sozinho. Pilar ressaltou a diferença que vê entre a concepção do corpo em movimento, se fazendo, e o corpo pós-moderno, corpo feito, pronto, acabado. Pilar também delineou como se daria a alienação, em cada categoria descrita. A emancipação se daria não apenas no discurso, mas na práxis material.
Não sei ao certo o que Américo e Pilar farão dessas categorias em seus projetos, mas sem dúvida elas expressam uma rica e complexa apropriação dos estudos que fizeram. Como categorias da mutação, do movimento, do que não fica num só lugar, como a borboleta da metáfora que usou, são reflexões que borboletearam a nossa tarde, movimentando os nossos pensamentos para além do óbvio, esperado e previsto. O licor talvez tenha ajudado um pouquinho...
Bom, espero ter retratado, a contento, ao meu modo, o que vivenciamos na aula de hoje.
Liane (Lica)





